Tremembé, true crime e a Janela de Overton: quando a empatia com criminosos começa a incomodar

Tremembé, true crime e a Janela de Overton: quando a empatia com criminosos começa a incomodar

Uma leitura que deixa marcas: Tremembé e o desconforto inevitável

Terminei Tremembé, de Ullisses Campbell, com sentimentos mistos. A narrativa é poderosa: escrita envolvente, ritmo firme, e uma capacidade notável de prender a atenção. Mas, em meio à admiração, surgiu um desconforto difícil de ignorar. Algo na forma como os personagens são apresentados me deixou inquieta. Não era só um relato sobre crimes brutais, mas uma construção cuidadosa da humanidade dos criminosos, ao ponto de eu, leitora, me ver quase cúmplice emocional.

Essa sensação me levou a refletir: até que ponto entender é o mesmo que justificar? Quando começamos a conhecer traumas, dores e histórias de vida dos criminosos, será que não estamos suavizando, mesmo que sutilmente, o impacto dos seus atos?

Foi aí que a ideia da Janela de Overton começou a ganhar sentido.


A centralidade do criminoso: quando o foco se desloca

Conforme avançava na leitura, percebi uma mudança curiosa. O criminoso deixava de ser apenas o autor de um ato brutal. Ele se tornava um personagem complexo, com traumas, sentimentos e, às vezes, até um certo charme. A narrativa mergulha em suas origens, sua infância difícil, seus conflitos internos. E, de repente, a brutalidade do crime parece se esconder atrás de uma biografia interessante.

O incômodo não vem da tentativa de entender. Entender faz parte. A própria psicanálise ensina que um sujeito não se resume ao que faz. Mas há um ponto sensível nessa equação: quando a dor das vítimas desaparece da narrativa. Quando conhecemos melhor o sofrimento do agressor do que o impacto causado em quem sofreu, algo se desequilibra.

Essa inversão silenciosa transforma o crime em pano de fundo — e não como o centro de uma tragédia real. Como se o interesse estivesse mais em contar uma boa história do que reconhecer o horror dos fatos.


O que é a Janela de Overton e por que ela importa aqui

A Janela de Overton é um conceito que ajuda a entender como determinadas ideias se tornam aceitáveis ao longo do tempo. Ela representa o espectro de ideias socialmente aceitáveis em um dado momento. Nas extremidades, temos o “impensável” de um lado e o “normalizado” do outro.

Esse espectro se move. E se move de forma sorrateira. Um tema que era tabu ontem pode ser considerado razoável amanhã, dependendo de como ele é apresentado nas narrativas, na mídia e nas conversas públicas.

Quando aplicamos isso ao universo do crime, o alerta é claro: é preciso ter cuidado. A forma como contamos histórias tem o poder de deslocar essa janela. O que antes causava repulsa pode, com o tempo, se tornar parte do entretenimento — e aí mora o perigo.


True crime e o papel da narrativa na nossa percepção da violência

Nos últimos anos, o gênero true crime explodiu em popularidade. Séries, documentários, podcasts, livros — todos nos convidam a mergulhar em casos reais de crimes. E, muitas vezes, o convite é sedutor. A produção é caprichada, o suspense é instigante, a edição é pensada para prender até o fim. Mas o que exatamente estamos consumindo?

Estamos assistindo a histórias de sofrimento humano ou a um novo tipo de espetáculo? A violência virou produto? Quando o criminoso se torna o personagem principal, quando seu dilema nos comove mais do que a dor da vítima, talvez estejamos, sem perceber, participando de uma mudança cultural silenciosa.

É aí que a Janela de Overton se move sem alarde. O choque vira curiosidade. O horror vira “interesse psicológico”. E o crime… vira conteúdo.


O charme do anti-herói: uma armadilha emocional?

Essa tendência de transformar criminosos em figuras quase “fascinantes” tem nome. É o fenômeno do anti-herói — alguém falho, ambíguo, mas com quem conseguimos nos conectar. A cultura pop adora esses personagens. De Walter White a Joe Goldberg, já estamos acostumados a torcer por quem, na vida real, nos causaria medo.

No true crime, isso ganha contornos delicados. Afinal, não estamos falando de ficção, mas de vidas reais interrompidas. E quando um criminoso é retratado com empatia excessiva, quando seus conflitos emocionais ganham mais destaque do que as marcas deixadas em suas vítimas, criamos um cenário perigoso.

Não se trata de negar a complexidade de um ser humano, mas de questionar: por que a dor da vítima não recebe o mesmo tratamento narrativo? Por que ela é, tantas vezes, apenas um dado no meio da trama?


Compreender o humano não é relativizar o crime

É essencial diferenciar compreensão de relativização. Compreender é investigar, ir fundo, explorar o porquê das ações, sem tirar do outro a responsabilidade por elas. É possível entender um ato sem desculpá-lo. A psicanálise nos convida a olhar o sujeito em sua totalidade, mas nunca a esquecer que há consequências.

Quando uma narrativa se esforça demais para construir o lado humano do agressor, mas falha em mostrar o impacto devastador de suas ações, estamos diante de uma relativização encoberta. O risco é sutil, mas real: naturalizar aquilo que deveria nos mobilizar.


O que essa sensação de desconforto diz sobre nós?

O mal-estar que certos livros ou documentários causam não é necessariamente ruim. Ele pode ser um sinal de que ainda temos sensibilidade. E, mais do que isso, pode nos levar a refletir sobre nosso próprio papel como espectadores.

Por que nos atraímos tanto por crimes brutais? O que buscamos nessas histórias? Seria uma forma de tentar compreender o inexplicável? Ou um jeito inconsciente de nos confrontarmos com os limites da nossa empatia?

A verdade é que essas narrativas nos colocam frente a frente com o que preferíamos manter distante. Elas revelam nossa curiosidade pelo inaceitável, nosso impulso de tocar no que deveria nos repelir.


Consumir com consciência: perguntas que podem guiar o olhar

Não se trata de demonizar o gênero true crime. Ele pode, sim, ser uma ferramenta para ampliar a consciência. Mas, para isso, é preciso um olhar atento. Algumas perguntas podem ajudar a construir esse olhar crítico:

  • O que essa narrativa me faz sentir sobre o crime?

  • Quem ganha mais espaço: o agressor ou a vítima?

  • Estou realmente compreendendo ou sendo anestesiada?

  • Essa história me humaniza ou me dessensibiliza?

  • Depois de consumir esse conteúdo, fico mais alerta à dor real ou mais indiferente a ela?

Essas perguntas funcionam como um freio interno, uma forma de manter a sensibilidade ativa mesmo diante de temas difíceis.


Tremembé como metáfora: a literatura que espelha e desafia

Ler Tremembé foi, para mim, uma experiência duplamente poderosa. Por um lado, a admiração genuína por uma escrita envolvente. Por outro, uma inquietação crescente sobre como as histórias estão sendo contadas. O livro virou um espelho. E, como todo bom espelho, mostrou mais do que eu esperava ver.

Ele revelou o quanto a narrativa molda o nosso olhar. E como esse olhar, se não for consciente, pode se adaptar ao inaceitável. Não por maldade, mas por repetição. Pela forma como certas histórias são construídas e consumidas.

Leia também:

Os 7 Pecados Capitais sob a perspectiva da psicanálise: A sombra que habita em todos nós


A nossa Janela de Overton também precisa de vigilância

No fim das contas, a Janela de Overton não se desloca sozinha. Somos nós que, aos poucos, vamos ajustando nossos limites. E isso acontece, muitas vezes, sem percebermos. É por isso que consumir esse tipo de conteúdo exige mais do que curiosidade. Exige responsabilidade.

A forma como escolhemos contar (e ouvir) histórias importa. Porque cada escolha narrativa move um pouquinho a nossa sensibilidade. E se essa sensibilidade começa a se apagar, algo precioso se perde no caminho.


Conclusão: a literatura como alerta e ferramenta de consciência

Ao fechar Tremembé, fiquei com uma pergunta ecoando: que tipo de sensibilidade quero preservar em mim? A que compreende, sem justificar? A que se importa, sem se anestesiar?

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja esse: manter a janela aberta, mas sem deixá-la ser empurrada para um lugar onde a violência vira apenas mais uma história bem contada.

E você, como tem se relacionado com esse tipo de narrativa?


5 Perguntas Frequentes (FAQs)

1. True crime é sempre um problema ético?
Não necessariamente. O problema está em como a narrativa é construída. Se ela romantiza o criminoso e apaga a vítima, pode sim levantar questões éticas.

2. É errado sentir empatia por um criminoso?
Empatia não significa aprovação. Sentir empatia por alguém não anula a gravidade dos seus atos. Mas é importante equilibrar essa empatia com o reconhecimento da dor da vítima.

3. A Janela de Overton se aplica só ao crime?
Não. Ela pode se aplicar a qualquer ideia social. Mas no contexto do crime, o deslocamento da janela pode tornar o inaceitável mais tolerável — o que é perigoso.

4. Como consumir true crime de forma consciente?
Fazendo perguntas críticas sobre a narrativa, refletindo sobre o espaço dado às vítimas e reconhecendo a complexidade dos temas, sem deixar de lado a responsabilidade.

5. Devo parar de consumir true crime?
Não é uma questão de parar, mas de escolher como consumir. A informação não é o problema — o problema é o tipo de olhar que ela incentiva.

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